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A ESCULTORA DA ARANHA GIGANTE

            Por Stela Jordy

 

Sempre que eu passava de bicicleta pelo MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo – no parque Ibirapuera, reparava naquela aranha gigante. Quando descobri que quem esculpiu aquela aranha enorme foi uma mulher, quis saber um pouco mais sobre ela.

 

A década de 60, sobretudo o ano de 1968, foi um ano marcante na vida da escultora franco-americana Louise Bourgeois. É impossível não notar os traços surreais e fálicos, que sugerem clima erótico em várias obras da artista. A obra Janus Fleuri, de 68, veio para contestar o papel do homem na sociedade, a intenção é “desconstruir” o pênis, ao evidenciá-lo de forma até banal. Louise é feminista  arrojada e obcecada pelo trabalho e por esculturas gigantes.Tem 96 anos de idade, vive em Nova Iorque e é uma das maiores escultoras do mundo.

 

“Louise Bourgeois desenvolveu uma lógica das pulsões, importando vincular sua obra aos grandes temas do conhecimento ou da literatura e não aos sistemas da arte. Melhor falar então de um material extraído de recalques e embates da vida como abandono e ira, desejo e agressão, comunicação e inacessibilidade do Outro. No confronto permanente entre pulsões de morte, angústia, medo e as pulsões da vida, a obra de Louise Bourgeois é uma dolorosa e triunfante afirmação da existência iluminada pela libido. Nessa obra biográfica e erotizada, transformar materiais em arte é uma conversão física, não no sentido religioso, mas como a conversão da eletricidade em força. (…) Digamos então que a obra de Louise Bourgeois caminhe pela territorialização de imensidões. São assim o corpo, a casa, a cidade e o desejo. Ou a geometria, a família e a insularidade. Obra antiplatônica, não se satisfaz com o mundo das idéias e conjecturas. Deseja ter um corpo.

Esta arte não despreza a intensa referência ao sujeito. Retira a mulher da zona da sombra da história da arte. E esse sujeito da arte é uma mulher. Depois de Bourgeois, o universo da arte já não será de mulheres no mundo dos homens, nem têm de falar aí a linguagem dos homens, mas tornar presente seu próprio desejo. Moda e roupa são partes de um código identificado com o feminino. (…) A imensa Aranha (…) é trabalho, doação, proteção e previdência. É da potência da teia oferecer-nos acolhida ou enredar-nos como uma presa. ‘A domesticidade é muito importante. Eu a acho avassaladora. Como tem de ser prática, paciente e prendada.’ A afetuosa memória da maternidade está entremeada em várias esculturas.”

Paulo Herkenhoff, diretor do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro.

 

2 comments Abril 24, 2008


 

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